Duas palavras

“Te amo” são só duas palavras, e quem ama sabe que um oceano jamais caberá em duas garrafas, assim como apenas dois fósforos jamais saciarão a fome de um fogo capaz de incendiar o mundo inteiro. Não se ama com frases, não há gramática e sintaxe que dê conta de conter um sentimento. Não há sujeitos, verbos, pronomes e predicados o suficiente em qualquer dicionário para expressar aquilo que apenas se pode transmitir por atos.

Quem ama diz “te amo” trazendo café-da-manhã na cama, acordando a pessoa amada mansamente, com um beijo debaixo da orelha ou um dedo que roça com suavidade toda a extensão de costas desnudas pelo lençol distraído. Quem ama sabe que ela não gosta de tomates secos ou tempero verde, e cozinha num sábado seu prato predileto com o vinho preferido.

Quem ama diz “te amo” com um “bom dia” e “boa noite” todos os dias, ainda que distanciados por quilômetros, ainda que em continentes diferentes e pelo fuso horário o sol brilhe para um e a lua resplandeça acima do outro – pois um casal de amantes orbita em torno de outro astro: o coração apaixonado.

Quem ama diz “te amo” com um abraço completo, de forma que a pessoa amada sinta-se segura como se nada mais no mundo fosse necessário para protegê-la. Quem ama diz “te amo” massageando o corpo dela da cabeça aos pés após um dia exaustivo, relaxando músculos tensos e cobrindo de beijos a pele descansada. Quem ama diz “te amo” oferecendo o próprio corpo como um refúgio em que ela se aninhará quando quiser chorar por sentir que o mundo inteiro é feito de farpas.

Quem ama diz “te amo” também para a criança que se esconde dentro ela, sabendo de cor todos os seus apelidos de infância e o que ela mais temia no escuro e mais amava na luz dos dias de sua puberdade. Quem ama diz “te amo” fazendo rir e brincar a criança que ela jamais revela aos outros.

Quem ama diz “te amo” já comendo com os olhos. Quem ama “diz te amo” entregando-se ao possui-la na cama, puxando o cabelo na raiz para não machucar e ao mesmo tempo transmitir toda a força de seu desejo. Quem ama diz “te amo” mordendo sua nuca firme o suficiente para fazer gemer mas não o bastante para deixar marcas. Quem ama diz “safada” com a segurança de quem saberá dizer mais tarde “meu amor”.

Quem ama não precisa sequer abrir a boca para dizer “te amo” – apenas para receber beijos e abrigar a outra língua que fala o vocabulário selvagem do desejo. Quem ama conhece outro dicionário, e faz de todo os seus gestos e corpos a expressão daquilo que não cabe em duas palavras.

Victor Lisboa

Texto retirado do facebook


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